Eu tenho transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): e daí? – Parte 2

Você leu a primeira parte desse artigo? Não? Então comece por aqui.

Então é isso. Eu tenho TDAH e foi muito ruim, no início, aceitar essa realidade, como disse no post anterior. Sabe porquê? Entre outros motivos, além da pena que sentia de mim mesma por tudo que não ocorreu direito em minha vida, pelo preconceito que achei que iria sofrer. Confesso: até o presente momento, ninguém me olhou torto. O preconceito estava em minha cabeça e não na dos outros. Tá certo, eu não fico cumprimentando as pessoas por aí e dizendo: “oi, tudo bem. Sabia que eu tenho transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade?”. Até semana passada poucas pessoas sabiam dessa “condição”. Vamos ver como será de agora em diante, depois dessa exposição aqui no blog. Mas, sabe o que? Agora estou mais tranquila e acho que posso encarar o que vier.

O que eu temia? Que me vissem como a louquinha do bairro, a mãe que precisa de medicação psiquiátrica. Eu temia que olhassem torto para meus filhos. Por que, você sabe, não sabe? Existe o mito: se você vai ao psiquiatra, então está com muitos parafusos soltos. Não é “normal”. Se fosse normal e estivesse só um pouquinho confusa, iria a uma psicóloga. Agora não tenho mais problemas com isso. Afinal, de médica e louca todas nós temos um pouco

E, fala sério! Quem é “certo” e quem é “maluco”? O cara que surfa ondas gigantescas é apenas aventureiro que gosta de coisas radicais ou é louco? A mulher que quer ser dona de casa porque ama a vida familiar e não quer ficar das oito as seis na rua, ouvindo bronca de chefe, é maluca ou é normal? Os cantores que passam a maior parte do ano fora de casa, em turnê, apresentando a todos os cantos do mundo sua obra, são malucos ou são normais?

Eu sou “normal”, de acordo com os padrões da sociedade. Mas também maluca, pelos mesmos padrões. Meu cérebro trabalha freneticamente, produzindo mil ideias e associações. Sou mais produtiva do que a maioria das pessoas. Tenho um conhecimento apreciável sobre várias coisas no mundo. Constituí família, casei porque quis, com o homem que amava e amarei pelo resto da vida. Me sinto feliz assim. Tive três filhos que estão muito bem, obrigada. E sim, perco o foco, tenho dificuldade em completar as tarefas, já que as ideias são muitas e várias vezes não consigo juntá-las em algo que flua para um bom resultado. É isso. Sou louca e sou normal.

A ciência ainda não sabe exatamente porque pensamos diferente, mas há medicação para ajustar nossas dificuldades. É certo que se trata de um desequilíbrio neuroquímico. Então, trato o assunto da seguinte maneira: não há pessoas que possuem hipotireoidismo e precisam de medicação para ajustar o funcionamento da tireóide? Sim, há. Não há pessoas que possuem anemia e precisam tomar suplemento de ferro, porque possuem um desequilíbrio sabe-se lá aonde? Sim, há pessoas assim. Pois meu desequilíbrio é no cérebro. Ele precisa de seu suplemento. Como o fígado um rim, o coração, o cérebro é uma das partes do corpo e é assim que o trato. Não há mais dramas.

Fora que o TDAH é hereditário, ou seja: não poderia fugir dele. Meu pai era um TDAH, com esse H beeeem maiúsculo. Assistia televisão de pé para poder mudar os canais mais rapidamente, numa época em que não existia o controle remoto. Você pode imaginar isso?

Para completar esse papo, tenho aqui em casa o seguinte lema: se não há remédio, remediado está. O que quero dizer com isso? Que não adianta brigar por certas coisas que não vamos poder mudar. Eu tenho a condição. Vou ficar chorando e me descabelando pelo resto da vida? Não! O tempo do choro é curto por essas coisas inevitáveis. E veja bem: não estou pregando o conformismo não! Pelo contrário.Lute pelo que você pode lutar. Busque modificar tudo aquilo que é possível. De resto, adapta-se. Ache suas estratégias para conviver com a realidade. Foi o que eu fiz.

E amiga, não caia nessa esparrela de não querer tomar remédio alopático, coisa e tal. Eu também não quero. Ninguém em sã consciência quer tomar remédios. Mas há momentos em que isso não é possível. Você deve se tratar com o mesmo carinho com que trata os outros. Você deixaria seu filho todo atrapalhado, sofrendo, sabendo que havia medicação para seu caso? Faria isso com sua mãe ou com seu melhor amigo? Então porque faz com você?

A medicação lhe dará outra qualidade de vida, caso esteja na mesma situação que eu. Mas atenção: procure um médico de confiança. Não “consiga” o remédio por aí. Trate-se. Alie a medicação a algum plano de ação. Sim, o remédio pode ter efeitos colaterais.Você deverá pesá-los e ver o que é melhor sentir: os efeitos do remédio ou as dificuldades que o TDAH te traz? No meu caso, o remédio foi minha salvação.

Nos vemos na próxima semana? Falarei sobre como tenho feito para me organizar. Quem sabe posso te ajudar?

Beijos e me liga!

 

 

 

 

 

 

 

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