Eu tenho Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): e daí?- Parte 1

FOCO

ATENÇÃO: ESTE NÃO É UM ACONSELHAMENTO PSICOLÓGICO OU MÉDICO. PROCURE SEU MÉDICO DE CONFIANÇA CASO SE IDENTIFIQUE COM O TEXTO.

Quero abrir meu coração com vocês. Talvez eu consiga ajudar algumas pessoas a entenderem uns perrengues que estão passando. Se pelo menos uma pessoa tiver um clique, já ficarei muito satisfeita. Se eu puder ajudar a tirar alguém da dor e recolocar no caminho da esperança, do crescimento, vou ficar imensamente feliz. Mas feliz meeeesmo! Por que sei o quanto me doeu descobrir, apenas aos 48 anos, que tinha Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade. Se tivesse sabido antes, eu ficava me dizendo o tempo todo, minha vida teria sido diferente. Sabe aquela coisa de vitimização? Pois é, passei por isso. Algo como um luto pela pessoa que não pude ser, entende? Precisei passar por isso e por mais um monte de coisas para entender que está tudo bem, que posso lidar com essa realidade e que o monstro não é tão assustador assim. Luto a gente tem que viver. Fazer de conta que não está sentindo nada? Pra que? A dor tá lá, guardadinha no fundo do coração. Um dia ela jorra, que  nem água de cachoeira.

Foi um caminho longo esse que eu percorri, de menina até aqui. Foi difícil a jornada. Imagine você que ninguém falava de TDAH até pouco tempo atrás. Imagine você que minha hiperatividade não era corporal e sim mental. Então, eu ficava quietinha em sala de aula, tentando controlar o pensamento, que voava para longe. O que acontecia? Ninguém me notava, os professores não me “incomodavam” e eu não incomodava os professores. Ficava bem para mim e para eles. Então, na hora de estudar, tinha que fazer esforço dobrado para conseguir concentração.

Eu cresci, mudei de escola, e continuei passando desapercebida. Era quieta, muuuuito quieta, mas a psicóloga nunca tentou entender o que acontecia em meu interior. Nem os professores, ocupados com o conteúdo e não com o ser humano que estava na frente deles. E olha só: isso não é uma crítica a escola em que estudei, nem aos mestres que tive. A vidar era assim. Ensinava-se de maneira x, cobrava-se a matéria da maneira y e adeus amor. Era o que tínhamos.

Bem, a vida continuou, mas vou te poupar de saber a respeito de todos os meus sufocos, de todas as dificuldades. Foram muitas. Eu ia levando, ouvindo as pessoas dizendo: “ih, isso não é nada, Cláudia. Te acalma! Pensa em gente que não tem dinheiro, que não tem o que comer”. Entenderam o absurdo da coisa? Eu me sentia culpada por me sentir atrapalhada, me queixando, enquanto outros não tinham grana para botar comida na mesa para seus filhos. Culpada! Você já se sentiu assim? Eu juro para vocês que sou solidária, que tenho empatia, que ajudo sempre a quem posso. Juro! A diferença é que hoje não me sinto culpada por não ajudar quando não é possível. Antes, ficava para morrer de tanta culpa. Claro! Eu aprendi que não podia sentir as dificuldades que sentia, que esses sentimentos eram vergonhosos e que haviam pessoas que sofriam muito mais do que eu!

AMIGA: NÃO CAIA NESSA CILADA! Sim, há gente que parece que nasceu para sofrer, é verdade, de tanta desgraça que vive. Isso não invalida o teu sofrimento. Você sofreu por tudo que te aconteceu? Tem todo o direito! Ainda sofre com o pouco entendimento de sua situação? Tem todo o direito. Está curtindo um tanto essa dor? Tem todo o direito de ter o seu tempo para elaborar tudo dentro de você, de passar dias e dias debruçada na janela pensando sobre o que teria sido de você se tivesse sabido antes que tinha TDAH. Claaaaro que vai chegar um momento em que ficar cultivando o sofrimento não vai adiantar muito. Vai chegar um momento em que você vai ter que arregaçar as mangas e ser objetiva, trabalhar com suas possibilidades, ser proativa. Mas, espere um pouco. Vamos falar sobre isso mais adiante.

Como eu soube que estava com algum problema que necessitava de tratamento e que não era algo passageiro? Bem, tudo começou lentamente. Tive problemas na área profissional. Eu não deslanchava, sabe como é? Fazia mil coisas, produzia muito, mas nada acontecia. Não, espera, vou repetir: eu produzia muuuito! Corria de cá para lá, fazia mil contatos, um cliente indicava para o outro o meu trabalho, mas a agenda não lotava. Eu sabia que não podia usar a velha desculpa de culpar a crise. Outros colegas estavam muito bem. Se a crise era a culpada, devia estar pegando a todos e não só a mim. Eu sabia que a crise não tinha culpa, mas era o que eu dizia por aí. Eu tinha vergonha de falar sobre a minha incompetência naquele momento. Guardei esse segredo dentro de mim.

Eu passei uns dois ou três anos preocupada com o trabalho e ganhando dinheiro esporadicamente. No final das contas, tive mais prejuízo do que lucro. Energia não me faltava para produzir e, de repente, eu esmorecia. A energia escorria por um cano. Não consigo nem contar quantos projetos abandonei por conta de não conseguir manter o foco. Fiz psicoterapia, coaching, busquei ajuda. Mas nada me fazia sair desse embrulho todo.

E vejam bem: eu nunca fui infeliz. Sempre disse que era feliz, apesar dos problemas. Apenas não conseguia desenvolver minha profissão. Eu achava que um dia iria conseguir, fazia força para isso, mas nada. A baixa auto-estima era uma presença, uma sombra. Eu não queria pensar em termos negativos, então afastava o pensamento. No entanto, no fundo, o que eu pensava era: eu sou uma merda!

E sabe? É muito difícil viver com vergonha, escondendo coisas por achar que tem algo de errado com você. Se todos conseguem, porque eu não? Todo mundo tem suas aptidões, todo mundo tem suas capacidades. Por que as minhas não aparecem? Por que não consigo vencer? É muito difícil se sentir diferente, com dificuldade de se encaixar em ambientes ou situações simples. É muito doloroso não conseguir ser o que se deseja. EU parei de desejar ser algo, já que sabia que esse algo não seria alcançado. Até hoje não posso pensar muito nisso, porque preciso parar para chorar.

Estão se identificando com esse papo? Então deixa eu continuar.

Aos poucos, fui notando que estava sem foco para as coisas de casa também. Não conseguia mais me organizar. Meus filhos foram desejados e muito amados, sempre estiveram bem, com material escolar em dia, uniforme, eu sempre fui às reuniões, coisa e tal. Com muito esforço. Sempre com muito esforço para não esquecer alguma coisa. Mas, para a casa, eu não conseguia dar o mesmo empenho, porque minha energia estava voltada para resolver as questões do trabalho. Sem a ajuda de alguma funcionária doméstica, sem ser eu mesma uma mulher preparada para os trabalhos do lar, vi as coisas ficando muito atrapalhadas aqui em casa.

Meu marido nunca reclamou de nada, nem as crianças. Mas eu não sou cega. Estava vendo que tudo andava de forma muito errada. Meu marido, para ajudar, fazia o jantar. Acontece que ele chegava muito cansado do trabalho, então preparava o que era mais fácil: nuggets, pizzas, massas daquelas beeeem porcaria. Resultado: engordamos e ele está com exames de sangue todos alterados.

Eu estava vendo as dificuldades se acumularem e encenava uma reação, fazendo listas e mais listas de coisas a fazer. Que não saíam do papel. Mas não pensem que a casa era um caos inominável. Não. Não estamos falando de caos psicótico. Tudo estava andando. Ao mesmo tempo, não estava andando. Eu fingia que estava conseguindo algum progresso com o trabalho. Meus filhos estavam saudáveis e passando de ano na escola. Meu marido trabalhando, ganhando a vida, sem que nós soubéssemos que sua saúde não estava tão boa assim.

As coisas ficaram piores quando comecei a perceber que minha insônia não dava trégua. Minha mente produzia zilhões de pensamentos durante o dia. Eu achava que todo mundo tinha a mesma velocidade de pensamento do que eu, que era isso mesmo, que os pensamentos nos invadiam a todos os momentos. Descobri depois que não. Minha cabeça não parava também durante a noite. Estava virando um inferno. Todos os dias eu tinha dor de cabeça. Todos os dias eu me sentia exausta. Claro! Era muita energia sendo desperdiçada.

Um belo dia, a mágica aconteceu. Estava conversando com a Carol Batista, que escreve aqui no blog e é uma coach incrível, sobre algumas questões que não vêm ao caso, e ela me convidou para participar de um encontro determinado em que eu teria que ficar duas horas sentada, me concentrando no palestrante. Imediatamente eu disse que não ia, que não tinha condições de me concentrar por esse tempo todo. Ela riu e me indicou uma pessoa, uma psiquiatra, que iria poder avaliar meu caso e confirmar – ou não  – meu TDAH.

Psiquiaaaatra, Cláudia? Mas psiquiatra é coisa de louco! É. Também. Mas, vamos deixar para falar de preconceitos mais adiante, em um outro momento?

A partir daí, tudo mudou. Fizemos testes com medicações, com dosagens, tipos, e comecei a me organizar. Estou mil vezes mais feliz que antes – e lembra que eu disse que já era feliz? – e sinto que, agora, tudo está entrando nos eixos.

Vamos continuar falando sobre TDAH em uma próxima postagem? Vamos falar dos sintomas, como comecei a me organizar, técnicas diversas para que você mantenha o foco e a concentração? Vamos falar sobre alimentação, sobre preconceitos, sobre loucura?

Beijos e me liga!

Continua no dia 04 de dezembro.

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