Grande Oprah, grande discurso, enorme caminho a percorrer

Muito bem, muito bom...Agora, passado o furor do discurso da Oprah na premiação do Golden Globe, fico me perguntando o que irá acontecer em um futuro próximo. O quanto avançaremos, depois de todo o palavreado inspirado dessa grande mulher. Quais medidas serão tomadas e por quem? Onde?

Me desculpem, sou um pouco descrente.Vocês acreditam que aqui no Brasil teremos mais respeito? Acreditam que teremos menos discriminação? E em Papai Noel, vocês também acreditam?

Sinceramente, eu gostaria que fosse diferente. Eu gostaria de ver minhas filhas sendo respeitadas em seus ambientes de trabalho, sendo valorizadas pelos seus talentos, por suas qualidades. Desejo ver minhas filhas felizes e realizadas, aplaudidas, ganhando bem, mas confesso que imagino que será mais fácil para meu filho alcançar isso tudo, pelo menos no que tange a ganhar bem. Elas poderão ter realização profissional, claro! Conversamos muito aqui em casa para que suas escolhas contemplem seus gostos, seus talentos. Também conversamos para que entendam que mudar de ideia não é pecado e que elas podem – e devem – se reinventar a todo momento. Tenho certeza que elas farão boas escolhas, assim como meu filho. E se não o fizerem, terão liberdade para mudar de ideia. Sem problemas. Tudo certo com meus filhos. Tudo certo com seus filhos. Tudo errado com “o sistema”. O “sistema” é brutal: coloca a mulher em jornadas duplas ou triplas, remunera mal – muito pior que aos homens – as coloca em situações vexatórias, abusivas.

No exterior, nós brasileiros temos fama de povo que recebe bem. Também de corruptos e de um tanto quanto vagabundos. Nós nos achamos um povo alegre, apesar das agruras da vida. Minha opinião? Somos um povo que sobrevive com o que tem, porque não há outra opção.Vemos muita maldade acontecendo por aqui, mas também temos muita gente boa, que se doa, que quer fazer o bem. Acontece que as iniciativas privadas são apenas uma marola nesse mar de dificuldades que enfrentamos diariamente. Minhas filhas terão a oportunidade de ganhar o mesmo que meu filho? Poderão chegar a grandes cargos de chefia, como ele? Terão seus espaços de trabalho assegurados, desde que mostrem competência?

Vejam bem: não estou sendo pessimista. Acredito na vida, nas possibilidades que todos os amanheceres nos trazem. Me faz feliz a possibilidade de acordar e saber que muita coisa poderá ser construída naquele dia. Mas, não me engano. Estamos longe de uma realidade em que todos seremos iguais, como na canção dos Beatles. Imaginar todas as pessoas vivendo suas vidas em paz? Sim, imagino. Um dia. Por que? Porque em pleno século XXI ainda precisamos falar de racismo e de assédio sexual! São assuntos que já deveriam ter sido superados, assim como a homofobia. NInguém é melhor do que ninguém. Vamos de novo: ninguém é melhor do que ninguém. Entenda que aqui, se estivéssemos conversando, eu estaria um pouco alterada, com a voz um tom acima do que deveria. Nem brancos, nem negros, nem amarelos, nem vermelhos. Nem judeus, nem cristãos, nem muçulmanos, nem budistas. Ninguém tem o direito de aproveitar-se de sua situação privilegiada para obter de outra pessoa “coisas” que não obteria de outra forma. Ninguém tem o direito de se meter na vida dos outros. Ponto.

Oprah discursou de uma forma linda, inspirada, emocionando o mundo com suas palavras. Precisamos de outras líderes como elas. Precisamos também que as palavras ditas não se percam e se tornem criadoras de novas realidades. Que voem e ressoem em ouvidos de milhares e milhares de pessoas, para que a corrente não se perca, para que outras tantas mulheres, no futuro, não precisem entender concretamente o significado de suas palavras. Lutemos para que o discurso do Golden Globe fique na história e para as novas gerações se torne uma peça de museu, como uma máquina de escrever, que teve grande valor em sua época mas que deixou de ser necessária.

Grande Oprah, grande discurso, enorme caminho a percorrer.

Com muito amor, para você.

 

Beijos e me liga.

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